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Crime justificado

Crime justificado

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Vivemos em uma época triste onde um crime justifica outro.

Por – Gil Reis consultor em Agronegócio.

Jamais imaginei que o mundo caminhasse nessa direção onde países passassem a usar como arma de guerra não fuzis, metralhadoras ou bombas e sim ‘sanções econômicas’. Tal arma atinge, preferencialmente, civis de baixo poder aquisitivo. Os líderes de alguns países ricos apontam as suas armas econômicas contra outros países como se apenas os países que lideram possuam povo os demais não. Tudo isso acontece logo após a humanidade ter dado, recentemente, um grande salto evolutivo que deveria ensejar um movimento dos seres humanos para extinguir as guerras.

Com relação às sanções econômicas leiamos o artigo publicado em 04/04/2022 no ‘Valor Econômico’ assinado por Rafael Valdez – “Sanções muito longas podem desmontar as cadeias globais”

“A guerra entre Rússia e Ucrânia é um evento histórico com potencial para redefinira ordem económica mundial, segundo os participantes da primeira edição do ano do debate “E Agora, Brasil?”, realizado on-line na quinta-feira pelos jornais “O Globo” e Valor. Se o impacto mais imediato para a economia brasileira foi o aumento de preços causado pela forte alta do petróleo no mercado internacional, o consenso é de que o mundo pós-guerra levará a uma reconfiguração nas relações internacionais.

Os sinais apontam para a manutenção duradoura das sanções impostas pelo Ocidente contra a Rússia. Nesse contexto, a China desempenha papel chave para o futuro da economia global, novamente sob ameaça de ficar dividida entre dois grandes blocos.

“É um erro dizer que uma nova guerra fria é uma possibilidade. Ela já se iniciou”, disse o diplomata, ex-ministro da Fazenda e conselheiro emérito do Centro Brasileiro de relações Internacionais (Cebri), Rubens Ricupero. “O problema é saber se vai ou não ter um efeito de permanência. Se permanecer e se agravar, vai levar a um comprometimento maior do que chamamos de globalização.”

Para Ricupero, a chance de que o conflito se encerre nas próximas semanas e que um cessar-fogo avance rapidamente para um acordo de paz não está totalmente descartada. Contudo, o mais provável é que a situação não se resolva facilmente. Além disso, as sanções impostas não seriam retiradas prontamente, o que incentiva a Rússia a buscar saídas económicas que contemplam o apoio da China.

“Pode-se chegar a um mundo em que haja dois sistemas de pagamentos diferenciados. Dois sistemas bancários e mesmo dois sistemas de internet separados, o que atingiria a globalização no seu âmago”, analisou o diplomata, que já foi embaixador do Brasil nos EUA.

Embora a guerra seja da Rússia, o posicionamento da China é visto como elemento fundamental. Os debatedores lembraram que há uma trégua vigente na guerra comercial entre os EUA e o país asiático, mas o presidente americano Joe Biden não retirou as barreiras impostas na época pelo seu antecessor, Donald Trump. “A coisa é mais com a China do que com a Rússia”, observou Armando Castelar, professor da FGV Direito Rio e do Instituto de Economia da UFRJ. “A China é o grande ganhador desse episódio. Vai ter acesso a gás barato e ao mercado russo”, afirmou.

Segundo Castelar, a recente guerra comercial entre EUA e China e o uso de sanções económicas contra a Rússia reforçam a percepção de que a economia virou uma arma. “Cada vez mais, a economia será usada como arma geopolítica. Em vez de mandar soldados, tira do Swift [sistema internacional de pagamentos], impede exportações. Mas isso tem consequência para a forma como a economia funciona. Já aconteceu no Irã, que criou o seu próprio sistema de internet”, destacou.

A tendência, avalia Castelar, é que a aplicação das sanções na escala usada contra a Rússia acelere o processo de desmontagem das cadeias globais de valor. “A China está investindo loucamente para ter os seus próprios chips e não depender dos chips americanos. Vai ter uma desconexão das cadeias globais”, disse, ressaltando que a iniciativa do Brasil de voltar a produzir fertilizantes internamente para não depender da importação da Rússia já entra nesse contexto.

Para o senador Jean Paul Prates (PT/RN), o cenário evidencia a importância de revisitar o conceito de soberania. “[É preciso] recompreender do ponto de vista histórico e estratégico o que é ser uma economia soberana e o que é ter autonomia em determinados insumos e recursos”, defendeu. “Exercer soberania no sentido moderno, que envolve países, governos e diplomacia, mas também grupos de interesse, conglomerados privados, patentes, cérebros. Quem tem isso detém soberania moderna.”

É impressionante tudo o que se lê e o que se fala à respeito do conflito no leste europeu. Os mais famosos economistas, políticos e especialistas apenas abordam a superfície do problema. Discute-se soberania e economia, apenas os dois temas. É claro que o ataque militar a qualquer país usando armas de destruição é um crime inominável. Ainda não li nada que ponha em dúvida as sanções econômicas com armas de guerra ou como atitude para forçar países a mudarem de procedimentos internos seguindo o ideário dos países que as utilizam.

Os países ricos que estabelecem sanções econômicas contra outros países sem perceber que atingem os mais pobres tirando-lhes toda a capacidade de sobrevivência e, mais, atingem as empresas que, até melhor juízo, são bens sociais. São as empresas que geram empregos, riquezas e promovem a distribuição de renda e não os governos e seus líderes. O maior perigo é os russos perceberem que apesar das declarações da OTAN de não interferir no conflito a postura não é verdadeira. A OTAN, capitaneada pelos EUA, já começou a atacar a Rússia usando as armas econômicas.

Paralelamente começa a surgir a ‘ficção’ de que as sanções econômicas destruirão a globalização. Mais uma vez se esquecem que a globalização não foi implementada por países e sim por empresas privadas, tal estrutura é uma tendência mundial e como tendência é muito difícil se opor a ela. A despeito do que imaginam os ‘líderes do mundo’ quem já começou a ditar a geopolítica foi o comércio internacional promovido pelas empresas privadas.

O mais trágico é que tais sanções econômicas, no caso específico do conflito no leste europeu, não promovem a paz e sim atingem os povos de países que não tem qualquer envolvimento com o que ocorre. Entre os atingidos estamos nós o povo brasileiro. Será que a atitude dos países ricos contra os civis mais pobres do mundo não pode ser classificada como crime? Será que um crime justifica outro?

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