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O fim do ferro em brasa

O fim do ferro em brasa

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Fazendas deixam de marcar o gado com ferro e fogo e usam brincos no lugar, para bem-estar do animal.

Por SEBASTIÃO NASCIMENTO COLABORAÇÃO PARA O UOL, EM SÃO PAULO

Carmen Perez: pioneira no fim da marcação a fogo

Ela tinha apenas 22 anos. Em 2002, a paulistana Carmen Perez deixou a metrópole onde nasceu e foi administrar a Fazenda Orvalho das Flores, em Araguaiana, Mato Grosso, herança do avô. Carmen sempre gostou do campo e dos animais. Passava as férias na propriedade. Ela lembra que ficou aterrorizada logo no início do trabalho ao deparar-se com a marcação a fogo do gado.

“Os lamentos barulhentos dos bichos ao contato com o ferro ardente me machucaram e para sempre. Logo nos primeiros dias coloquei como minha condição dar um fim ao sofrimento do rebanho.”

E assim foi feito. Após buscar o aconselhamento de estudiosos, entre eles um dos mais reputados na área do bem-estar animal, Mateus Paranhos, da Unesp/Jaboticabal, Carmen foi eliminando com o passar dos anos a antiga prática e decretou o fim, em 2016, ao que chama de “jugo do ferrete” e que considera “bárbara”.

Passou a usar brincos afixados na orelha do gado para identificá-lo, anotar datas de vacina, nome da fazenda, etc.

A Orvalho das Flores, segundo Carmen, foi uma das primeiras no Brasil a abolir a marcação a fogo em 100% do seu rebanho bovino. Atualmente, o ferro em brasa é usado lá somente para controlar a vacinação contra a brucelose. O método é obrigatório no Estado de Mato Grosso.

Carmen Perez afirma que o fim dos ferretes, ao mesmo tempo em que dá um basta ao sofrimento da boiada, afasta o estresse dos vaqueiros e traz também ganhos econômicos à atividade pecuária, pois elimina os ferimentos na carcaça dos bichos, que são valorizados pelos frigoríficos ao abate.

A agenda da pecuarista tornou-se repleta de compromissos pelo país inteiro para levar informações sobre a importância da redução ao máximo da marca a fogo.

“Há evidências científicas de que o uso do ferrete causa dor e sofrimento ao animal, além de angústia. É necessária a substituição do método”, declara ela.

Dados do animal são lidos no computador

Professor Mateus Paranhos, da Unesp/Jaboticabal, especialista em bem-estar animal

Um passo importante para a fazenda foi dado em novembro do ano passado. Carmen, o professor Paranhos e o grupo Etco, também da Unesp/Jaboticabal e que estuda o bem estar na produção animal, lançaram o projeto “Redução da Marca a Fogo”, com patrocínio das empresas JBS, Allflex, e MSD, atuantes no agronegócio.

Mateus Paranhos observa que o projeto nasceu de um grande número de consultas recebidas por ele de interessados em conhecer as experiências da Orvalho das Flores.

Segundo ele, está havendo uma mudança positiva nas fazendas no que diz respeito à diminuição da marcação a fogo o que dá força e estímulo ao projeto.

Segundo Carmen, o trabalho em conjunto de empresas do agronegócio e os profissionais que compõem o projeto está sendo fundamental para o bom andamento e reflete a realidade dos tempos atuais, que é o uso acelerado de novas tecnologias nas fazendas, sejam as de pecuária ou as de agricultura.

Os especialistas escolheram quatro fazendas de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo para serem um modelo do projeto.

Eles percorrem essas propriedades e transmitem informações. “Conscientizam de que existem outras formas de identificar o gado em detrimento da marcação a ferro. Como o brinco eletrônico: após um tempo é só passar um bastão e ler os dados do animal no computador”, afirmaCarmen.

São feitas reuniões nas fazendas com a presença do proprietário e sua família, dos vaqueiros e peões. É o próprio professor Paranhos quem transmite as novidades. Mostra, por exemplo, que as medidas de sustentabilidade, entre elas a substituição gradual do ferrete, visam ao bem-estar do rebanho e trazem lucratividade à pecuária.

Mostrando as alternativas

“É incrível a aceitação positiva dos pecuaristas e dos trabalhadores rurais que se dispõem a diminuir – e no futuro abolir – a marca a fogo. Estamos felizes”, diz o professor Mateus Paranhos.

Segundo ele, outras fazendas estão lotando a sua agenda interessadas em reduzir a marcação a ferro. “Seus proprietários querem conhecer alternativas à maneira agressiva e que leva sofrimento ao gado.”

Paranhos lembra que no início surgiram críticas ao projeto. “Muitos alegavam que abolir a marca a fogo não era viável. Depois da implementação do projeto nas fazendas, os resultados positivos vieram e as mensagens de apoio chegam hoje em intensidade.”

Gado da fazenda São Clemente, de São José dos Campos, também tem identificação na orelha

Consumidor está atento ao bem-estar do gado

Em São José dos Campos, cidade industrializada do Vale do Paraíba, interior paulista, o proprietário da Fazenda São Clemente, e de mais três espalhadas pela região, confirma o otimismo do professor Paranhos.

Frederico Marcondes Cesar afirma que chegava a marcar a fogo um mesmo animal entre 12 a 14 vezes. De agosto a dezembro, lembra Frederico, nascem até 1.600 bezerros por ano e todos agora são identificados pelos brincos e bottons aplicados na orelha.

“Temos 20 anos na pecuária de seleção e gradualmente abolimos a marcação a fogo”, diz Frederico. “É um processo evolutivo. Decretamos o fim do calor e da fumaça nos currais que chegavam a durar até uma semana e provocava muito estresse.”

Acalma o gado e acalma a equipe de trabalhadores. Para se ter ideia da dimensão e importância do trabalho, 18 mil marcas a ferro deixam de ser efetuadas a cada ano nas suas fazendas, segundo o pecuarista.

As fazendas de Frederico trabalham com o gado nelore para venda de matrizes e cruza a raça zebuína com a angus para a engorda em confinamento.

Frederico afirma que o consumidor está atento ao bem-estar animal nas fazendas, reconhece a preocupação dos produtores de carne e o mercado paga melhor o produto.

Apenas uma vez a marca a ferro é feita no animal. Para incrustar a marca da fazenda e prevenir-se contra roubos.

Desafio de interromper a marcação é cultural

Fábio Dias, diretor de relacionamento com o pecuarista da Friboi (grupo JBS), explica que um desafio cultural está sendo superado. Segundo ele, que é um conhecedor experiente do dia a dia das fazendas, o uso do ferro em brasa é hábito milenar.

Assim, as dificuldades para a redução são robustas, porém as fazendas estão aderindo às tecnologias que eliminam o sofrimento do gado. “12 ou 13 marcas ao longo da vida do animal são substituídas por brincos e tatuagens. É a evolução”, diz.

Fábio Dias destaca a necessidade de divulgar os bons resultados que brotam das mudanças em hábitos praticados há séculos e da chegada das tecnologias sustentáveis. Segundo ele, “é possível, sim, não marcar o boi a ferro quente.”

Ele acredita, portanto, no projeto “Redução de marca a fogo” como uma tendência dos novos tempos que se avizinham e nos quais a produção de carne bovina vai aumentar para atender a demanda crescente de um consumidor cada vez mais consciente.

Fonte: UOL

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