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Investigadora conta sua trajetória de 30 anos na Polícia Civil

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Luciene Oliveira | PJC-MT

“Eram tempos difíceis. A gente trabalhava sem energia elétrica, com uma vela,  lamparina ou lanterna nas mãos”, lembra a investigadora de polícia, Daise Beckmann Morel Luck, que completou 30 anos de carreira, no dia 7 maio de 2016. A policial representa uma das 1.051 mulheres (38 delegadas, 497 escrivães e 559 investigadoras), que integram o quadro feminino da Polícia Judiciária Civil de Mato Grosso.

No Dia Internacional da Mulher, 8 de março, a investigadora, que sempre trabalhou mais ao lado de homens, conta sua trajetória de policial feminina, que a exemplo de muitas outras mulheres da Polícia Civil, concilia a atividade profissional de risco com a vida doméstica, de cuidar da casa, dos filhos e do marido. A jornada dupla de muitas ainda inclui curso de formação profissional e atividades físicas, para melhoria da qualidade de vida, e assim aguentar a carga de estresse  do dia a dia da função policial.

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O desejo de ser policial foi efetivado em 1986, quando a jovem Daise Beckmann se inscreveu no primeiro concurso da Polícia Judiciária Civil.  Seu primeiro de muitos plantões 24 x 24 – trabalhava 24h e folgava 24h – foi na Delegacia Municipal de Sinop. Depois foi lotada em Guarantã do Norte, Sorriso, Peixoto de Azevedo e na Delegacia Municipal e Regional de Alta Floresta, de 1988 a fevereiro de 2001.

“Eram poucos policiais e muito serviço. Trabalhamos integrados com a Polícia Militar; cuidávamos dos presos; fazíamos investigação e rondas noturnas. Nas ocorrências de investigação, como eu era mulher, ia à frente, batia na porta e depois chegava os colegas”, recorda.

Foto: Arquivo Pessoal. Delegacia Municipal de Sinop – 1986.

Se hoje na Polícia Civil há carência de efetivo e de estrutura, o que dizer numa época que se percorria quilômetros de estradas de terra, enfrentava muita poeira no rosto e atoleiros no período chuvoso, para levar adiante uma investigação ou conduzir presos de um município para outro, usando apenas uma viatura do tipo Gurgel, Brasília, Fusca ou Veraneio, os modelos adotados naqueles tempos.

“Não tem comparação com a forma e meios que trabalhamos hoje. A gente se envolvia muito nas ocorrências, sabíamos tudo o que estava acontecendo na cidade, principalmente,  em regiões de garimpo”, fala a investigadora, que há 13 anos está lotada no Centro Integrado de Operações de Segurança Pública (CIOSP).

Fatos marcantes estão registrados em sua carreira policial. Um deles foi à invasão da Delegacia de Peixoto de Azevedo, em 1987. Populares revoltados pela morte, por policiais, de duas pessoas envolvidas em um roubo, ameaçavam atear fogo na delegacia para obrigar os policiais a saírem da unidade. “Eu sai pelos fundos da delegacia e outros dois colegas pela frente junto com a PM. Logo foi colocado fogo na Delegacia e na casa do delegado. Tudo foi queimado”, lembra Daise.

Foto: Arquivo Pessoal. Viatura modelo Gurgel, Sinop.

A carreira de 30 anos, dedicada boa parte ao trabalho operacional, acumula também registros históricos como a queda de um avião, em 1988, no município de Paranaíta (851 km ao Norte), e a chacina em Apiacás (1.010 km ao Norte), no ano de 2001, quando cinco pessoas foram assassinadas na Gleba Raposo Tavares, no Distrito de Mutum. Pelo crime, 36 pessoas foram denunciadas pelo Ministério Publico Estadual.

Daise relata que os atendimentos as ocorrências de homicídios,  entre os anos de 1987 a 1989, principalmente nas localidades do auge da extração do garimpo, eram os mais difíceis, devido ao acesso de mata fechada e degradação da área cheia de barrancos. Ela se recorda do homicídio de um garimpeiro, localizado em um distante  povoado, que hoje se transformou no município de Novo Mundo (785 km ao Norte).

Foto: Arquivo Pessoal – Atendimento de homicídio em área de garimpo – 1987.

“A única forma de atender essa ocorrência era de avião. Andamos alguns metros de caminhada e depois atravessamos o rio com um bote de madeira para ouvir testemunhas e concluir a ocorrência”, conta.

Até o ano 2000 atuou no Nortão de Mato  Grosso, vindo para Cuiabá  em janeiro de 2001, passando pelas Delegacias do Consumidor (quando  a sede era ainda no Verdão) e a Delegacia Fazendária.

No dia 3 de abril de 2004 tirou seu primeiro plantão no CIOSP, como rádio operador. Em 2005, assumiu o posto de chefe de operações da Polícia Civil no CIOSP, permanecendo até os dias de hoje.    

Sua experiência no interior e na capital, a faz analisar que Polícia sempre foi e será sinônimo de segurança, sendo reconhecida pelos seus atos ou não. “O policial de verdade, na hora de trabalhar, quando chamado para cumprir com sua função, sempre estará pronto. Isso é a atividade policial, não tem hora e nem local. Polícia é para quem gosta e não para quem quer. Polícia é um ato de amor”, afirma.

No CIOSP, destaca o papel fundamental das denúncias recebidas pelos atendentes,  para resguardar vidas e cessar a prática de crimes graves como sequestro e violência sexual de crianças e adolescentes. “Valorizo muito as denúncias. Se a pessoa liga é porque está se sentindo  acuada. É como se tivesse pedindo ajuda. Isso mexe muito com o nosso psicológico, por mais que estejamos acostumados”, explica.

Foto: Lenine Martins/Sesp-MT

Família e Polícia 

Natural de Três Passos, município de Estado do Rio Grande do Sul, sua família se mudou com os três filhos para o Estado de Mato Grosso, ano de 1977, indo morar no município de Sinop, cidade que nasceu o quarto filho, a caçula da família. Lá iniciou a carreira policial, assim como o irmão mais velho e o mais novo, que se tornaram policiais militares. O mais velho, Aldemir Henrique Beckmann, morreu em 1991 aos 26 anos, durante uma ocorrência policial, no município de Paranaíta. O mais novo, Ademir Edson Beckmann, está aposentado como cabo da Polícia Militar. “Somos de uma família que todos viraram policial, exceto minha irmã mais nova”.

Há 13 anos está lotada no Centro Integrado de Operações de Segurança Pública (CIOSP). Foto: Lenine Martins/Sesp-MT

Foi em meio à atividade policial que conheceu seu marido, o também investigador de polícia, José Agno Morell Luck, atualmente aposentado. O casal teve dois filhos. O primeiro filho, Douglas Beckmann Morel Luck, está  com 27 anos e é advogado criminalista na cidade de Alta Floresta. O segundo filho Dalton Beckmann Morel Luck faleceu com 1 ano e dois meses e 24 dias. Está enterrado em Alta Floresta.

“Muitas vezes, ambos estávamos de plantão fora da residência. Tínhamos que nos organizar para cada um tirar plantão em dias diferente. Os tempos eram outros, salários atrasados e não dava para ter uma secretária do lar para cuidar das crianças”, disse.

“Com todas as dificuldades da época nossos familiares eram os próprios colegas de trabalho. Poucos tinham parentes de sangue. Então, a Polícia se tornava uma família só, que convivia na alegria e na tristeza. Todos se ajudavam como família, amigos, filhos e pais”, completa Daise.  

Formação

A rotina da atividade policial, de pouco tempo para a família e os amigos, não impediu que a investigadora se formasse no curso de Letras, em 1999, na cidade de Alta Floresta. Concluiu pós-graduação em Psicopedagogia na Educação (1999 -2001) e também cursou uma segunda faculdade em Direito, pela Univag. Tem especialização em Segurança Pública e Direitos Humanos (2006 -2008) e concluirá neste ano de  2017 doutorado em Ciências Jurídicas e Sociais, pela UMSA, em Buenos Aires, na Argentina. Sua tese de defesa leva o tema: Segurança Pública como bem estar, não somente para punir e vigiar. É instrutora da Academia de Polícia Civil, na Escola Superior de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (ESFAP), da Polícia Militar e tutora do EAD. Ministra aulas no Curso de pós-graduação pela EduCare-MT. 

Fonte: PJC

 

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